O aplicativo ficou pronto. Agora começa o custo que ninguém orçou
A conta do desenvolvimento é a parte fácil, porque ela é única e tem data para acabar. O que pega é o que vem depois: loja, certificado, atualização de sistema operacional e a manutenção que não produz nenhuma tela nova.
Quase todo orçamento de aplicativo responde a mesma pergunta: quanto custa fazer. É a pergunta natural, tem resposta objetiva, e ela vem com prazo e entrega.
A pergunta que quase ninguém faz, e que define se o app vai existir daqui a três anos, é outra: quanto custa manter. Não porque manutenção seja cara em termos absolutos, mas porque ela é contínua, não produz nada visível e por isso é a primeira coisa a ser cortada quando aperta.
Aplicativo não é site. Um site parado continua no ar e continua funcionando. Um aplicativo parado vai, em algum momento, parar de abrir.
A diferença que muda tudo: o app depende de terceiros
Um site responde a um navegador, e navegador tem compromisso quase religioso com compatibilidade retroativa. Página escrita em 2015 abre hoje.
Um aplicativo mora dentro de duas plataformas que não têm esse compromisso. A Apple e o Google mudam regra de loja, sobem a versão mínima exigida, depreciam biblioteca e trocam requisito de privacidade em ciclo anual. Nada disso pergunta se o seu app está pronto.
Isso significa que existe um custo de manutenção que não vem de você. Ele vem de fora, tem calendário próprio e chega mesmo que ninguém peça nenhuma funcionalidade nova.
O que continua custando depois da entrega
Vale separar em blocos, porque eles têm naturezas diferentes e nem todos são mensais.
Contas de loja
Conta de desenvolvedor nas duas lojas é obrigatória para publicar e para continuar publicado. Uma cobra anuidade, a outra cobra uma taxa única de inscrição. É o menor dos custos e o mais fácil de esquecer, e app removido por conta vencida é um jeito constrangedor de descobrir isso.
Certificados e chaves de assinatura
Aplicativo precisa ser assinado digitalmente. Certificado expira. Chave de assinatura perdida é um problema sem volta bonita: no Android, sem ela, a atualização do app existente deixa de ser possível e o caminho vira publicar um app novo, com outro endereço na loja, perdendo os downloads e as avaliações acumuladas.
Guardar essa chave com a empresa, e não apenas com quem desenvolveu, é o item mais barato desta lista e o de maior consequência. É o mesmo raciocínio que vale para a titularidade do domínio: o ativo tem que estar em nome de quem depende dele.
Servidor e serviços
Se o app fala com um sistema, existe um servidor, um banco de dados e provavelmente serviços de terceiro: envio de notificação, armazenamento de arquivo, autenticação, mapa. Cada um tem custo próprio, e vários escalam com uso, o que é bom quando o app cresce e é surpresa quando o crescimento vem de uma campanha.
Atualização de sistema operacional
Todo ano sai uma versão nova de iOS e de Android. Na maioria dos casos nada quebra. Em alguns casos quebra, e quebra para todo mundo ao mesmo tempo, porque o celular atualiza sozinho.
Esse é o custo mais difícil de orçar, porque ele é irregular: pode ser zero por dois anos e virar duas semanas de trabalho no terceiro.
Correção do que aparece no uso real
Erro que só acontece em um modelo específico, em uma versão específica, com a rede oscilando. Isso não aparece em teste, aparece em produção, e a diferença entre um app com nota 4,5 e um com nota 2,8 costuma ser a velocidade com que essas correções saem.
A manutenção que não gera tela nenhuma
Aqui está o ponto que mais gera atrito entre quem paga e quem desenvolve.
Boa parte da manutenção de um aplicativo produz exatamente nada de visível. Atualizar biblioteca, migrar para a versão nova da linguagem, ajustar ao requisito de privacidade da loja, recompilar contra a SDK exigida. O app continua igual na tela, o usuário não percebe diferença, e a fatura chegou.
Parece desperdício. É o contrário: é o trabalho que evita o cenário em que a loja recusa a próxima atualização e o app fica congelado na versão que está lá, sem poder receber nem correção de erro.
A analogia honesta não é reforma, é revisão de veículo. Ninguém vê a revisão. Quem pula sente depois, e sente caro.
Quanto isso pesa, em proporção
Não existe número universal, porque depende de quanto o app faz e de quantos serviços ele usa. Mas existe uma referência útil de mercado para orçar: reserve por ano uma fração relevante do custo de desenvolvimento, na faixa de 15% a 25%, para um aplicativo com backend e uso real.
App muito simples, sem servidor próprio e sem integração, fica abaixo disso. App com pagamento, integração e volume alto de usuário fica acima.
O que importa não é acertar o percentual, é ter a linha no orçamento. Projeto que entra no ar com verba de manutenção igual a zero está combinando, sem dizer, que vai parar.
Como reduzir esse custo de verdade
Existem decisões tomadas antes da primeira linha de código que mudam a conta dos anos seguintes.
- Não fazer app quando um site resolve. É a economia mais radical, e a mais frequente. Se a necessidade é ser encontrado, mostrar catálogo e receber contato, um site bem feito entrega isso sem depender de loja nenhuma. Vale ler sobre quando um site que instala no celular substitui o aplicativo.
- Menos dependência externa. Cada biblioteca de terceiro é uma promessa de manutenção feita por outra pessoa, que pode ser abandonada.
- Escopo pequeno na primeira versão. Tela que existe é tela que precisa ser mantida, testada e adaptada a cada mudança de sistema. Funcionalidade que ninguém usa custa todo ano.
- Guardar os acessos com a empresa. Contas de loja, chave de assinatura, domínio, servidor e repositório em nome da empresa. Não reduz o custo técnico, mas elimina o custo de refazer do zero quando a relação com o fornecedor muda.
- Contrato de manutenção previsível. Valor mensal combinado evita a dinâmica em que cada correção vira negociação e, por isso, demora.
O que perguntar antes de assinar o desenvolvimento
A hora de tratar do custo de manutenção é antes de começar, não quando a primeira fatura de manutenção chega. Cinco perguntas mudam completamente a relação, e todas têm resposta objetiva.
- Em nome de quem ficam as contas de loja? A resposta certa é: da empresa dona do app. Conta em nome do fornecedor transforma uma troca de fornecedor em republicação do zero.
- Onde fica a chave de assinatura e quem tem cópia? Se a empresa não tem uma cópia guardada, ela não tem o app.
- O código-fonte é entregue e em qual repositório ele vive? Código entregue em arquivo compactado no fim do projeto é melhor que nada, e pior que acesso ao repositório desde o começo.
- O que está incluído na manutenção e o que é cobrado à parte? Correção de erro, adaptação a nova versão de sistema e funcionalidade nova são três coisas diferentes, e misturá-las no contrato garante discussão futura.
- Quais serviços de terceiro o app usa e quem paga cada um? Notificação, armazenamento, mapa e autenticação têm fatura própria, e várias escalam com uso.
Nenhuma dessas perguntas é sobre desconfiança. Elas são sobre continuidade: o app precisa sobreviver a uma mudança de fornecedor, a uma mudança de equipe e a uma mudança de plano de negócio, e é isso que separa um ativo de um projeto.
Sinais de que o app está sendo abandonado
Nem sempre a decisão de parar é tomada. Na maioria das vezes ela apenas acontece. Três sinais aparecem antes do problema:
- A última atualização tem mais de um ano. Isso é visível na própria loja, inclusive para os seus clientes.
- Ninguém sabe onde estão as chaves e as contas. Se a resposta é "está com o pessoal que fez", o risco já existe.
- A avaliação está caindo e ninguém responde. Comentário de erro sem resposta é o registro público de que não há manutenção.
Os três são reversíveis enquanto o acesso existe. Depois que a chave se perde, não são.
Perguntas frequentes
Quanto custa manter um aplicativo por ano?
Depende do tamanho e de quantos serviços ele consome, mas uma referência de orçamento é reservar entre 15% e 25% do custo de desenvolvimento por ano, para um app com backend e uso real. App simples, sem servidor próprio, fica abaixo. O erro comum não é errar o percentual, é não ter a linha no orçamento.
O que acontece se eu simplesmente não atualizar o app?
Por um tempo, nada. Depois as lojas passam a exigir versão mínima de SDK para aceitar atualizações, e o app fica congelado na versão publicada, sem poder receber nem correção. Em paralelo, novas versões de iOS e Android podem quebrar funcionalidades, e aí não há como consertar sem primeiro fazer a manutenção acumulada.
Preciso pagar as duas lojas mesmo tendo poucos usuários?
Se o app está publicado nas duas, sim. Uma cobra anuidade de desenvolvedor e a outra uma taxa de inscrição única. É o menor custo da lista e o mais esquecido, e conta vencida tira o app do ar independentemente de quantas pessoas usam.
Por que pago manutenção se nada mudou no aplicativo?
Porque boa parte da manutenção não produz tela nova: é atualizar biblioteca, recompilar contra a SDK que a loja passou a exigir e ajustar requisito de privacidade. O app fica igual e continua aceito pelas lojas. É o trabalho que evita o cenário em que a próxima atualização é recusada.
A chave de assinatura pode ficar com a empresa que desenvolveu?
Pode ficar guardada por ela, mas a empresa dona do app precisa ter uma cópia e o acesso às contas de loja. Sem a chave de assinatura, no Android, não é possível atualizar o app existente: o caminho vira publicar um aplicativo novo, com outro endereço, perdendo downloads e avaliações.
Dá para reduzir o custo trocando o app por um site?
Em muitos casos, sim, e é a economia mais radical possível. Se a necessidade é ser encontrado, apresentar catálogo e receber contato, um site resolve sem depender de loja, certificado ou ciclo de atualização de sistema. Aplicativo se justifica quando há uso recorrente, necessidade de funcionar sem internet ou recurso do aparelho que o navegador não alcança.
Com que frequência um app precisa ser atualizado?
Pelo menos uma vez por ano, mesmo sem novidade, para acompanhar as exigências das lojas e as versões novas de iOS e Android. Correção de erro entra fora desse calendário, conforme aparece no uso real. App com mais de um ano sem atualização é visível na loja para qualquer pessoa que olhe.
Resumindo
O custo de fazer um aplicativo é único, tem prazo e é o que todo mundo pergunta. O custo de mantê-lo é contínuo, invisível e é o que decide se ele ainda vai existir daqui a três anos.
Loja, certificado, servidor, atualização de sistema e correção do que aparece no uso real chegam querendo ou não, porque boa parte deles tem calendário definido pela Apple e pelo Google, não por você. E a manutenção que não gera tela nenhuma é justamente a que evita o app congelado.
Se você tem um aplicativo no ar e não sabe dizer onde estão as chaves de assinatura e as contas de loja, esse é o primeiro item a resolver, antes de qualquer discussão de funcionalidade. Fale com a NSWeb se quiser ajuda para colocar isso em ordem.